Vivi intensamente 12 anos com o João. Digo vivi, pois hoje estamos separados. Nesses 12 anos foram muitas alegrias, desafios, entregas e, principalmente, cúmplicidade. Sim, éramos cúmplices de tudo, mas não por inércia, mas por decisões após entendimentos. Porém, mesmo isso ainda sendo presente em quase a totallidade de nossa relação, em alguns momentos João estava longe. No começo achei que era somente cansaço ou sobrecarga, mas depois fui percebendo que algo estava errado. Havia algo oculto em suas atitudes, mas ele sempre foi evasivo em suas respostas e posições. Quando estávamos mais ou menos há 6 anos eu descobri que ele me traiu. Fiquei sem chão. Me cobrei, pensei que o problema estava comigo. Foi algo casual, extremamente casual, mesmo assim doeu. Como nossas vidas estavam entrelaçadas avaliei que poderia dar uma chance. Pensei em como os homens são vulneráveis a sexo e que isso poderia ser passageiro. Junto com isso minhas cobranças aumentaram para lhe agradar. Apenas cobranças, pois pouco conseguimos avançar. Parecia que o básico se tornou a regra e qualquer coisa fora isso tinha se tornado um tabu. Tudo muito estranho. Mas como eu o amava, era tudo uma forma de tentar manter o que tínhamos de bom. E de fato foi muito bom viver com ele. Disso realmente não tenho o que me queixar. Mas aí aconteceu novamente e como diz a música "o perdão cansou de perdoar". E decidimos nos separar. Foi tudo muito tenso e pesado. Não estávamos preparados para isso, aliás, quem está? Agora faz quase um ano solteira novamente. E as neurôses parecem reflorescer como ipês no inverno, esplêndidos pela beleza e tristes pela solidão. Você leitor ou leitora talvez não entenda a linha dos acontecimentos, mas sinceramente, isso não importa no momento. O que importa é que estou aqui, viva, só, cansada e na maioria das vezes triste. Tive algumas experiências, boas no final, mas com final. Não me vejo me entregando novamente. Parece que a vida a dois não faz mais sentido depois do João. Minhas experiências esbarraram em limites que eu nem sabia que existia. Hora é o corpo, hora é o jeito, hora são as mensagens desviadas. Mas toda hora tem alguma coisa. Acho que até desisti de tentar, embora dentro de mim alguma chama clama por isso. Acho que é difícil ficar só depois de tudo que aconteceu, mas é mais difícil ficar com alguém. Minha terapêuta tem tentado fazer eu refletir sobre tudo isso. Acho que até consigo, mas só não consigo mudar esses sentimentos que oscilam entre o desejo e a repugância. Sinto-me em um deserto com o desejo de água e o cansaço de tentar encontrar, restando apenas me entregar ao destino, tão incerto como o presente. Queria reencontrar a Pri e a Amanda, mas elas estão longe. Vez ou outra conversamos pelo whats. É bom e triste.
Neurótica e Romântica
"O homem é um animal que pensa, a mulher é um animal que pensa o contrário"
quinta-feira, 20 de março de 2025
quarta-feira, 12 de março de 2025
Crescer e atrofiar é possível?
Depois que me mudei, ou seja, casei, com o João, minhas neurôses se aquietaram bastante. Nunca desapareceram, mas o romance parece ter colocado panos quentes. Mas assim como a brasa que ainda aquece sob terra jogada, eu sentia que elas estavam lá. Eu acabei me afastando de minhas amigas, éramos apenas eu o João no mundo. Era algo estranho, mas inevitável. Era uma vida a dois sendo construída.
Um dos momentos mais intensos que tive com ele foi o planejamento da aquisição e reforma de um apartamento novo. O local não poderia ser melhor, em frente a uma das principais praças da cidade e com uma sacada maravilhosa para apreciá-la. João foi muito importante nesse processo, decisivo e determinado. A reforma foi planejada detalhadamente ao nosso gosto e necessidades. O processo foi mais ou menos longo e exaustivo, mas extremamente recompensador. Nos mudamos três meses antes da pandemia de covid-19 e estar naquele apartamento novo e com a nossa cara foi essencial para passarmos os dias difícieis da pandemia. Isso amenizou as dores do momento.
Quando voltamos à "normalidade" nossa intimidade havia se intesificado. Não era mais eu o João no mundo, era nós. Nós para os outros, nós para o mundo, nós para nós. Hoje avalio que isso proporcionou um tremendo crescimento, mas ao mesmo tempo, um atrofiamento. Crescemos pois ambos tínhamos o que oferecer um ao outro. Tínhamos cumplicidade, amizade e paixão. Atrofiamento porque só tínhamos um ao outro. Era difícil alguém ultrapassar nossas barreiras e entrar em nossa vida, pois além de tudo, éramos exigentes.
terça-feira, 11 de março de 2025
Um tempo no meio do tempo
Não expliquei exatamente o que aconteceu, o salto no tempo foi demasiado extenso. Vou tentar, embora minha memória possa me trair. Aproximar-me da Fabinilda e da Cris foi um momento importante para mim. Tanto profissional quanto emocional. Como disse, as referências que elas me proporcionaram foram imprescindíveis para eu sair da minha zona de conforto. Não sei exatamente como foi, mas ocuparam um certo vazio que existia em mim, embora hoje vejo que esse vazio é meio que permanente (mas isso fica para outro momento). O fato é que ao mudar de cidade acabei ficando vulnerável a outras influências. O bom que essas duas me trouxeram boas influências, aliás, ótimas influências. A Fabi, vou abreviar aqui, tem uma personalidade bem parecida com a da Pri, embora, hoje avalio, com mais emoção e menos racionalidade que a Pri. Não consigo avaliar se a Cris se parece com a Amanda, mas tenho a impressão que não. Quando comecei a sair com as duas aconteceu de conhecer o João. No começo foi só um "oi, prazer!". Ele estava muito na dele, querendo curtir o repertório de MPB que tocava no bar. Eu também fiquei na minha, pois na época eu estava de rolo com o Marcos (essa é outra história). Depois de um tempo, já em processo de ruptura com o Marcos, queria curtir e me divertir e fui para o mesmo bar que conheci o João. E, por ironia ou não, ele estava lá novamente. Com a mesma calma e concentração da primeira vez que o vi. Não sei exatamente o que aconteceu, foi tudo muito rápido, mas depois de dançar com ele, parece que algo mudou. E depois de duas ou três danças acabamos nos beijando. Foi meio estranho, confesso. Ele ainda parecia estar na dele e sem muita entrega. Mas tudo bem, eu não estava ali para namorar ou casar com ele. Era apenas uma noite. Mas para para minha surpresa no outro dia ele me enviou uma mensagem dizendo o quanto havia gostado de ficar comigo. Achei fofo, mas tentei não criar expectativas. É como dizem: crie qualquer coisa, só não crie expectativas! Enfim, ele me convidou para ir ao cinema, estava acontecendo um festival de cinema latino. E foi ótimo! Ali percebi que algo a mais poderia acontecer. Isso foi durante a semana e no final de semana nos encontramos novamente. Agora assistindo a um filme na casa dele. Foi engraçado, pois ele não tive TV e pegou emprestado da sua chefe. Assistimos um filme iraniano, isso mesmo, iraniano! Achei realmente diferente. O nome é Antes da Chuva. Bem interessante. Mas mais interessante foi a reação dele, pois ficou sinceramente emocionado. De novo, achei fofo e acabei me entregando. Foi bom, mas a nossa intimidade ainda estava pouco construída. Quando voltei pra casa fiquei me perguntando: será que finalmente vou construir uma história em conjunto? Durante a semana que se passou continuamos trocando mensagens. E algo estava diferente em mim. Conversei com a Fabi e a Cris e elas deram as melhores referências dele. Disseram para não ter receio. Embora reafirmando que se tratava de um homem, e que isso bastaria para ficar atenta. Ficamos novamente no final de semana seguinte e dali pra frente foi se estabelecendo um vínculo afetivo e amoroso. Eu me sentia feliz com ele, ele era sensível e engraçado. E também demonstrava sinais de inteligência. Depois de um mês passado, estávamos na casa da Cris e alguém perguntou para mim o que o João meu. Ele respondeu em forma de pergunta: namorados? E então decidimos que estávamos namorando. Foi tudo muito intenso e rápido, e até assustador, confesso. Mas eu decidi me entregar, estava curtindo e ele indicava que também estava feliz comigo. Namoramos cerca de um ano e pouco e frequentemente eu dormia em sua casa, sobretudo nos finais de semana. Aquilo foi se consolidando e ele demonstrava entrega e carinho, que foi correspondido. Depois desse período avaliamos que nossa relação estava estável e o amor era presente. E decidimos morar juntos, que no caso era na casa dele. Quando me mudei eu tive um imensa crise alérgica. Tossia a noite toda, mas estava feliz. Entendemos então que estávamos casados e que isso merecia formalizações e rituais de passagem. Fizemos um jantar com amigos e familiares e registramos nossa união estável em cartório. E de tudo isso passou-se um ano após estarmos juntos.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Um nova esperança para uma velha dor
Fiz duas novas amigas em meu novo trabalho. A Fabinilda e a Cristina. Fabinilda é um tratamento carinhoso. Ambas são ótimas, a Fabinilda tem cabelo vermelho, é exótica, guerreira e sensível. A Cris é oriental, centrada, perspicaz e inteligente. É claro que essas são características sob o meu ponto de vista e que não as definem, afinal, são como todo e qualquer ser humano, cheio de virtudes e defeitos também. Aliás, a sensibilidade da Fabinilda é às vezes exagerada e ela sofre muito com isso. E a perspicácia e inteligência juntas na Cris, às vezes a torna um pouco chata. O sofrimento da Fabinilda a gente acolhe, e a chatice da Cri é bem tranquilha. Um detalhe interessante, a Cris quando bebe fica bem vermelha e engraçadinha e a Fabi mais sensível ainda. Quando saberem disso ficarão bravas comigo. São coisas da vida de uma escritora. Tenho me divertido com essas duas. E ambas já me apresentaram muitas coisas boas desta cidade. A primeira foi o samba do Serenô no clube 13 de maio. Ótimo! Excelente! E a segunda foi o Trio Quintina no Empória São Francisco. Ótimo! Excelente! Mas o principal que me apresentaram foi o João. Ai, meu Deus! Que homem! Sensível, inteligente, carinhoso, envolvente, uma fala mansa, um jeito introspectivo que me derreteu, um olhar penetrante. Mas calma, essas são as características depois de um ano de casamento. Isso, eu me casei com o João. Ele é .... ah, calma. Vou tentar descrever um pouco de nossa história aqui.
sábado, 20 de novembro de 2010
Uma luz no fim do túnel
Hoje tive um sonho que me mostrou a realidade, paradoxo não? Um sonho mostrar a realidade, mas enfim, sonhei que estava em um navio que começou a afundar. Em alto mar tinha apenas um barco salva-vidas com o Dr. Carlos. Ele me chamou para entrar no barco e quando me atirei para nadar até ele, o barco já não estava mais lá, nadei horas para encontrar algo até o momento em que me vi sozinha, comecei a afundar, afundar e acordei. Esse sonho me fez ver que aceitar a proposta do Dr. Carlos é a pior das minhas opções, acho que fiz isso ontem por estar abalada ou chocada com a situação, acabei ficando imóvel e não percebi o tamanho da besteira que havia feito, mas como diria no filme Vanila Sky: “todo segundo é uma nova chance para se mudar tudo”. E este é o instante, a vida presente, a realidade. E foram com esses pensamentos que hoje fui trabalhar e com toda sensatez de um arrependimento fui conversar com o Dr. Carlos para pedir minha demissão. Ele, sempre preocupado com a empresa, perguntou se eu tornaria público as suas falcatruas. Disse que não havia pensado sobre isso e no momento certo ele saberia minha decisão. É estranho, tudo isso me mostrou o quanto estava errada e o quanto era ingênua. Errada em planejar minha ascensão na empresa pela derrota de outro e ingênua por achar que isso era lutar pelos meus direitos. Só agora percebo.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Da carência de mudança ao mundo carente.
Já se passou muito tempo depois da última mensagem, e o tempo é cruel na vida de uma mulher. Amores se perdem, oportunidades se vão, mas sempre tem janelas e portas que se abrem dizendo: vem, vem recomeçar, vem experimentar esse doce amargo que é viver. Depois do Cláudio, no amor, me atirei em ilusões que só me fizeram sofrer. Mas de tudo aprendi que nada tem solução, apenas retorno a si. Mas isso conto em outra oportunidade. O que me chama a atenção é minha situação na empresa. O asqueroso do Sr. Cláudio continua no mesmo lugar e cada vez pior, cada vez se deleitando com seu pequeno, mas eficiente poder. Quase todos os dias em que coloco a cabeça no travesseiro, tenho vontade de morrer dormindo. Simplesmente não acordar para trabalhar. Mas o despertador sempre me lembra o dever de enfrentar a vida. Esta vida que em grande parte não escolhi, apenas nasci. Dizem que a vida é tirana, sempre discordei dessa idéia e pensava que nós é que somos tiranos de nossa própria vida, até chegar o dia que a realidade me provou o contrário. Foi uma semana depois de ter planejado o tombo do Sr. Cláudio. Cheguei firme dentro do meu castelo de cartas e mostrei o meu melhor, usei toda minha delicadeza ao colocar a última carta na pilha que se estendia pelos meus planos, mas não contava com o suborno do desejo e tudo caiu num piscar de olhos que nem percebi que na mesa havia mais coisas que a minha vã racionalidade pensou. Havia o corporativismo, o rabo preso e tudo mais que a intimidade não deixou transparecer aos meus olhos ingênuos e sedentos de mudança. Cheguei toda imponente e mostrei tudo para o Dr. Carlos, todos os erros e falcatruas do Sr. Cláudio. E foi nesse momento em que o Dr. Carlos mostrou sua face oculta. Olhou bem nos meus olhos e perguntou: “O que te faz supor que não sei dessas coisas?”. Na hora o espanto não me deixou responder, gaguejei e quando tentei falar ele me interrompeu imediatamente e com pesar disse: “Não diga nada, chame o Sr. Cláudio, volte para sua sala e faça seu serviço, depois conversaremos”. Chamei o Sr. Cláudio e no caminho até minha sala tudo ficou claro como o sol que nasce em uma manhã de inverno. “Que burra, que estúpida, que ingênua. É Vivian nessa você se deu mal, muito mal”. Fiquei esperando concentrada em minha ansiedade por uns quinze minutos, foi quando o Sr. Cláudio apareceu balançando a cabeça com reprovação e com um olhar de pena. Aquele sem dúvida foi o pior momento, porque todo meu plano era atingi-lo e todos os tiros saíram pela culatra, e a culatra foram aqueles olhos. Fui para a sala do Dr. Carlos, pediu para eu me sentasse, respirou fundo e começou a dissertar uma longa introdução sobre os tempos difíceis em que estamos vivendo, sobre a política econômica ou algo parecido. Não prestei muita atenção, não por maldade, mas porque simplesmente não conseguiu esquecer o olhar do Sr. Cláudio. Fiquei imaginando o que ele estava falando para os colegas, o tudo que poderia ter dito para o Dr. Carlos. Estava ouvindo o homem que dias atrás pensava estar apaixonada, mas só conseguia olhar o movimento do pequeno relógio de ponteiros sobre a mesa e pensar no deboche do Sr. Cláudio. Que maldição, pensei. Por alguns instantes veio uma vontade enorme de sair correndo pela porta, dar um tapa na cara do Sr. Cláudio e me libertar de todas aquelas amarras invisíveis que me prendiam naquela cadeira, mas não consegui nem mexer meus braços que estavam sobre minhas pernas. O Dr. Carlos continuava com seu discurso, parecia que agora falava sobre os altos impostos e a dificuldade de concorrer com os grandes empresários da área. Concordava com tudo, sem compreender muito sua linha de raciocínio. Lembro-me que ao ouvir sobre a concorrência pensei na própria concorrência dentro da empresa. Que mundo e este que vivemos? Como conseguir estabelecer qualquer tipo de relação sem ficar com o pé atrás? Percebi que embora criticando toda aquela situação, também fazia parte dela de forma visceral, pois estava competindo com o próprio Sr. Cláudio. Senti repugnância de mim mesma. Tentei me agarrar em minhas razões, mas elas escorregavam em minhas auto-condenações. Não conseguia se esquivar de meus próprios pensamentos. O Dr. Carlos ora se levantava ora andava por detrás de sua mesa ora olhava pra mim para ver se estava prestando atenção. Esses momentos eram como socos em meu útero. Depois de alguns minutos ele finalmente mudou o tom de sua voz, virou-se pra mim e disse: “Srta. Vivian, você é uma boa funcionária, executa tudo com eficiência e precisão e você é quem decide: você é esperta, e como sabe, tudo que me falou a minutos atrás pode nos levar a um escândalo e a empresa não resistiria e chegaria a falência. O que prefere: destruir tudo e todos que te acolheram e deram ensinamentos, experiências e oportunidades, ou continuar colaborando com nossa empresa, trabalhando para o seu bom desempenho e qualidade?”. Eu não acreditava naquilo, não conseguia acreditar que todas aquelas palavras saíram da boca do Dr. Carlos. Minha barriga gelou, minhas mãos estremeceram, minhas pernas enfraqueceram. E completou: “É claro que você não sairá de mãos abanando, conversei com o Sr. Cláudio e decidimos oferecer um aumento de salário para você de 20%. O que me diz?”. Como ele conseguia ser tão frio falando daquela maneira. Toda a coragem que vi dias atrás em meus olhos refletida em meu espelho se dissipou. E tudo que consegui foi concordar. E hoje estou aqui, deitada em minha cama lembrando que amanhã o relógio irá despertar, que terei que levantar, olhar novamente no mesmo espelho e nos meus olhos e sentar na mesma cadeira.
sábado, 11 de agosto de 2007
Velhas novidades
segunda-feira, 9 de julho de 2007
Um é ruim, será que dois é bom?
sábado, 7 de julho de 2007
Quinta no vinho
terça-feira, 3 de julho de 2007
E segunda chegou e se foi
Vocês não acreditam. Hoje acordei toda animada, coloquei meu melhor terninho, me maquiei, sem muitos exageros claro, apenas para realçar, e quando chego no trabalho tenho a notícia que o Sr. Cláudio teve um infarto no final de semana. Até fiquei com dó, coitado. Eu só queria ocupar meu espaço nesse escritório, não precisava que ele sofresse assim. Não devia ter falado mal dele. Ai, porque sou assim? Até ontem ele era meu pior inimigo, agora fico compadecida pela situação. Só espero que ele melhore, pois caso contrário como vou dar prosseguimento no meu plano.
Por causa dessa situação o Dr. Carlos acabou ficando mais perto de mim. Ele sempre delegou poderes ao Sr. Cláudio e hoje teve que participar mais do trabalho. Inicialmente tentei controlar minha admiração por ele, mas acabei dando bandeira quando ele pediu para que ele levasse a petição do Sr. Costa para ele ver. Assim que ele me pediu para sentar acabei derrubando os documentos no chão. Também, precisava dar aquele sorriso, mas acho que ele não percebeu. Ou deve estar acostumado a desconcertar as mulheres em sua presença. É claro que me recompus imediatamente e justifiquei que estava preocupada com o Sr. Cláudio. De fato estava, mas não no sentido que ele entendeu. Disse que era uma fatalidade o ocorrido, começou a elogiá-lo, dizendo que era um bom homem, um bom marido, um bom pai e um bom profissional. Minha vontade foi falar tudo, relatar todos os erros do Sr. Cláudio no trabalho e que tenho que concertar, que ele subjuga sua esposa e fica cantando sua secretária e que nem ouve seus filhos. Não consigo entender como o Dr. Carlos, um homem tão inteligente, não vê essas coisas, deve ser o corporativismo masculino. Ou será que ele é ingênuo nessas coisas? É, deve ser ingenuidade, ele não tem cara de ser corporativista.
Obs: Acabei não explicando direito a razão deste diário. Tenho o hábito de escrever sobre os acontecimento da minha vida desde os 16 anos quando dei meu primeiro beijo. Adoro ver e rever o que escrevo e perceber o que mudei e o que não mudei. A Priscila, uma grande amiga feminista, me criticou por colocar o título de Neurótica e Romântica. Disse que estou reforçando uma visão machista sobre as mulheres. Até pensei em modificar, mas essa não foi a intenção. Sobre ser neurótica acredito que é uma condição da atual sociedade e não simplesmente pelo fato de ser mulher. Aliás, hoje vejo mais homens neuróticos que mulheres. Minha intenção é exatamente mostrar isso, que embora as mulheres sejam taxadas e muitas vezes são mesmo, não se trata de uma condição especifica de ser mulher. E pra ser sincera não vejo nenhum problema em ter neuroses, eu até gosto de algumas delas. Outras realmente gostaria de mudar, mas só com o tempo e com algumas seções de terapia. Se ser mulher também é ser neurótica, não vejo nenhum problema nisso. Acredito que o problema é separar e atribuir esse comportamento somente as mulheres. Isso não aceito mesmo. Agora sobre o Romântica, nem preciso falar muito. Algumas mulheres, inclusive a Priscila, diz que ser romântica é sinônimo de fraqueza, que temos que controlar nossas emoções e nos mostrarmos sempre forte. Até concordo em certo ponto, porque é só mostrar algum sinal de fraqueza que os homens se aproveitam. Mas a sociedade anda tão cética, racionalista, metódica, mecânica que um pouco de romantismo acredito que não faz mal. Acabar com o romantismo significa a prevalência do ponto de vista masculino. É claro que Romântica aqui não significa ser ingênua, submissa, mas compartilhar sonhos. E porque não compartilhar também com os homens, esses seres tão frágeis.