quarta-feira, 12 de março de 2025

Crescer e atrofiar é possível?

Depois que me mudei, ou seja, casei, com o João, minhas neurôses se aquietaram bastante. Nunca desapareceram, mas o romance parece ter colocado panos quentes. Mas assim como a brasa que ainda aquece sob terra jogada, eu sentia que elas estavam lá. Eu acabei me afastando de minhas amigas, éramos apenas eu o João no mundo. Era algo estranho, mas inevitável. Era uma vida a dois sendo construída.

Um dos momentos mais intensos que tive com ele foi o planejamento da aquisição e reforma de um apartamento novo. O local não poderia ser melhor, em frente a uma das principais praças da cidade e com uma sacada maravilhosa para apreciá-la. João foi muito importante nesse processo, decisivo e determinado. A reforma foi planejada detalhadamente ao nosso gosto e necessidades. O processo foi mais ou menos longo e exaustivo, mas extremamente recompensador. Nos mudamos três meses antes da pandemia de covid-19 e estar naquele apartamento novo e com a nossa cara foi essencial para passarmos os dias difícieis da pandemia. Isso amenizou as dores do momento. 

Quando voltamos à "normalidade" nossa intimidade havia se intesificado. Não era mais eu o João no mundo, era nós. Nós para os outros, nós para o mundo, nós para nós. Hoje avalio que isso proporcionou um tremendo crescimento, mas ao mesmo tempo, um atrofiamento. Crescemos pois ambos tínhamos o que oferecer um ao outro. Tínhamos cumplicidade, amizade e paixão. Atrofiamento porque só tínhamos um ao outro. Era difícil alguém ultrapassar nossas barreiras e entrar em nossa vida, pois além de tudo, éramos exigentes. 

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