quinta-feira, 20 de março de 2025

O fim e o recomeço

Vivi intensamente 12 anos com o João. Digo vivi, pois hoje estamos separados. Nesses 12 anos foram muitas alegrias, desafios, entregas e, principalmente, cúmplicidade. Sim, éramos cúmplices de tudo, mas não por inércia, mas por decisões após entendimentos. Porém, mesmo isso ainda sendo presente em quase a totallidade de nossa relação, em alguns momentos João estava longe. No começo achei que era somente cansaço ou sobrecarga, mas depois fui percebendo que algo estava errado. Havia algo oculto em suas atitudes, mas ele sempre foi evasivo em suas respostas e posições. Quando estávamos mais ou menos há 6 anos eu descobri que ele me traiu. Fiquei sem chão. Me cobrei, pensei que o problema estava comigo. Foi algo casual, extremamente casual, mesmo assim doeu. Como nossas vidas estavam entrelaçadas avaliei que poderia dar uma chance. Pensei em como os homens são vulneráveis a sexo e que isso poderia ser passageiro. Junto com isso minhas cobranças aumentaram para lhe agradar. Apenas cobranças, pois pouco conseguimos avançar. Parecia que o básico se tornou a regra e qualquer coisa fora isso tinha se tornado um tabu. Tudo muito estranho. Mas como eu o amava, era tudo uma forma de tentar manter o que tínhamos de bom. E de fato foi muito bom viver com ele. Disso realmente não tenho o que me queixar. Mas aí aconteceu novamente e como diz a música "o perdão cansou de perdoar". E decidimos nos separar. Foi tudo muito tenso e pesado. Não estávamos preparados para isso, aliás, quem está? Agora faz quase um ano solteira novamente. E as neurôses parecem reflorescer como ipês no inverno, esplêndidos pela beleza e tristes pela solidão. Você leitor ou leitora talvez não entenda a linha dos acontecimentos, mas sinceramente, isso não importa no momento. O que importa é que estou aqui, viva, só, cansada e na maioria das vezes triste. Tive algumas experiências, boas no final, mas com final. Não me vejo me entregando novamente. Parece que a vida a dois não faz mais sentido depois do João. Minhas experiências esbarraram em limites que eu nem sabia que existia. Hora é o corpo, hora é o jeito, hora são as mensagens desviadas. Mas toda hora tem alguma coisa. Acho que até desisti de tentar, embora dentro de mim alguma chama clama por isso. Acho que é difícil ficar só depois de tudo que aconteceu, mas é mais difícil ficar com alguém. Minha terapêuta tem tentado fazer eu refletir sobre tudo isso. Acho que até consigo, mas só não consigo mudar esses sentimentos que oscilam entre o desejo e a repugância. Sinto-me em um deserto com o desejo de água e o cansaço de tentar encontrar, restando apenas me entregar ao destino, tão incerto como o presente. Queria reencontrar a Pri e a Amanda, mas elas estão longe. Vez ou outra conversamos pelo whats. É bom e triste. 

quarta-feira, 12 de março de 2025

Crescer e atrofiar é possível?

Depois que me mudei, ou seja, casei, com o João, minhas neurôses se aquietaram bastante. Nunca desapareceram, mas o romance parece ter colocado panos quentes. Mas assim como a brasa que ainda aquece sob terra jogada, eu sentia que elas estavam lá. Eu acabei me afastando de minhas amigas, éramos apenas eu o João no mundo. Era algo estranho, mas inevitável. Era uma vida a dois sendo construída.

Um dos momentos mais intensos que tive com ele foi o planejamento da aquisição e reforma de um apartamento novo. O local não poderia ser melhor, em frente a uma das principais praças da cidade e com uma sacada maravilhosa para apreciá-la. João foi muito importante nesse processo, decisivo e determinado. A reforma foi planejada detalhadamente ao nosso gosto e necessidades. O processo foi mais ou menos longo e exaustivo, mas extremamente recompensador. Nos mudamos três meses antes da pandemia de covid-19 e estar naquele apartamento novo e com a nossa cara foi essencial para passarmos os dias difícieis da pandemia. Isso amenizou as dores do momento. 

Quando voltamos à "normalidade" nossa intimidade havia se intesificado. Não era mais eu o João no mundo, era nós. Nós para os outros, nós para o mundo, nós para nós. Hoje avalio que isso proporcionou um tremendo crescimento, mas ao mesmo tempo, um atrofiamento. Crescemos pois ambos tínhamos o que oferecer um ao outro. Tínhamos cumplicidade, amizade e paixão. Atrofiamento porque só tínhamos um ao outro. Era difícil alguém ultrapassar nossas barreiras e entrar em nossa vida, pois além de tudo, éramos exigentes. 

terça-feira, 11 de março de 2025

Um tempo no meio do tempo

Não expliquei exatamente o que aconteceu, o salto no tempo foi demasiado extenso. Vou tentar, embora minha memória possa me trair. Aproximar-me da Fabinilda e da Cris foi um momento importante para mim. Tanto profissional quanto emocional. Como disse, as referências que elas me proporcionaram foram imprescindíveis para eu sair da minha zona de conforto. Não sei exatamente como foi, mas ocuparam um certo vazio que existia em mim, embora hoje vejo que esse vazio é meio que permanente (mas isso fica para outro momento). O fato é que ao mudar de cidade acabei ficando vulnerável a outras influências. O bom que essas duas me trouxeram boas influências, aliás, ótimas influências. A Fabi, vou abreviar aqui, tem uma personalidade bem parecida com a da Pri, embora, hoje avalio, com mais emoção e menos racionalidade que a Pri. Não consigo avaliar se a Cris se parece com a Amanda, mas tenho a impressão que não. Quando comecei a sair com as duas aconteceu de conhecer o João. No começo foi só um "oi, prazer!". Ele estava muito na dele, querendo curtir o repertório de MPB que tocava no bar. Eu também fiquei na minha, pois na época eu estava de rolo com o Marcos (essa é outra história). Depois de um tempo, já em processo de ruptura com o Marcos, queria curtir e me divertir e fui para o mesmo bar que conheci o João. E, por ironia ou não, ele estava lá novamente. Com a mesma calma e concentração da primeira vez que o vi. Não sei exatamente o que aconteceu, foi tudo muito rápido, mas depois de dançar com ele, parece que algo mudou. E depois de duas ou três danças acabamos nos beijando. Foi meio estranho, confesso. Ele ainda parecia estar na dele e sem muita entrega. Mas tudo bem, eu não estava ali para namorar ou casar com ele. Era apenas uma noite. Mas para para minha surpresa no outro dia ele me enviou uma mensagem dizendo o quanto havia gostado de ficar comigo. Achei fofo, mas tentei não criar expectativas. É como dizem: crie qualquer coisa, só não crie expectativas! Enfim, ele me convidou para ir ao cinema, estava acontecendo um festival de cinema latino. E foi ótimo! Ali percebi que algo a mais poderia acontecer. Isso foi durante a semana e no final de semana nos encontramos novamente. Agora assistindo a um filme na casa dele. Foi engraçado, pois ele não tive TV e pegou emprestado da sua chefe. Assistimos um filme iraniano, isso mesmo, iraniano! Achei realmente diferente. O nome é Antes da Chuva. Bem interessante. Mas mais interessante foi a reação dele, pois ficou sinceramente emocionado. De novo, achei fofo e acabei me entregando. Foi bom, mas a nossa intimidade ainda estava pouco construída. Quando voltei pra casa fiquei me perguntando: será que finalmente vou construir uma história em conjunto? Durante a semana que se passou continuamos trocando mensagens. E algo estava diferente em mim. Conversei com a Fabi e a Cris e elas deram as melhores referências dele. Disseram para não ter receio. Embora reafirmando que se tratava de um homem, e que isso bastaria para ficar atenta. Ficamos novamente no final de semana seguinte e dali pra frente foi se estabelecendo um vínculo afetivo e amoroso. Eu me sentia feliz com ele, ele era sensível e engraçado. E também demonstrava sinais de inteligência. Depois de um mês passado, estávamos na casa da Cris e alguém perguntou para mim o que o João meu. Ele respondeu em forma de pergunta: namorados? E então decidimos que estávamos namorando. Foi tudo muito intenso e rápido, e até assustador, confesso. Mas eu decidi me entregar, estava curtindo e ele indicava que também estava feliz comigo. Namoramos cerca de um ano e pouco e frequentemente eu dormia em sua casa, sobretudo nos finais de semana. Aquilo foi se consolidando e ele demonstrava entrega e carinho, que foi correspondido. Depois desse período avaliamos que nossa relação estava estável e o amor era presente. E decidimos morar juntos, que no caso era na casa dele. Quando me mudei eu tive um imensa crise alérgica. Tossia a noite toda, mas estava feliz. Entendemos então que estávamos casados e que isso merecia formalizações e rituais de passagem. Fizemos um jantar com amigos e familiares e registramos nossa união estável em cartório. E de tudo isso passou-se um ano após estarmos juntos.